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Renafro Curitiba é lançada e reforça integração entre saúde pública e povos de terreiro

O lançamento do Núcleo da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde (Renafro) em Curitiba reuniu inúmeras lideranças religiosas para debater diversos temas ligados à saúde e à qualidade de vida dos povos de Axé. O evento aconteceu na sede da Associação dos Professores da Universidade Federal do Paraná (APUFPR-SSind), nos dias 14 e 15 de março, sendo acompanhado em ambas as datas pelo Perfil Azeviche — veja os registros abaixo.

Inauguração Renafro Curitiba
Foto registrada em 14 de março de 2026, no 1º dia do ato de inauguração da Renafro Curitiba, instituição da organização civil que reúne povos de terreiro, gestores e profissionais de saúde, integrantes de organizações não governamentais, pesquisadores e lideranças do movimento negro trabalhando pela promoção da saúde da população dos terreiros. Foto: Gabriel Souza/Perfil Azeviche Paraná

Criada em 2023, durante o II Seminário Nacional Religiões Afro-Brasileiras e Saúde, na cidade de São Luís, capital do Maranhão (MA), a Renafro tem inúmeros objetivos, que podem ser sintetizados na valorização e potencialização do saber dos terreiros em relação a boas práticas de promoção da saúde a seu povo, assegurando o respeito às práticas ancestrais.

O grupo, que é composto por membros da sociedade civil, também instiga as lideranças religiosas a “ultrapassarem” o papel dado a elas no dia a dia de um terreiro, propondo a ocupação de espaços institucionais em diferentes frentes de trabalho, tais como: a articulação política, a comunicação e a relação com diferentes grupos identitários.

Inauguração Renafro Curitiba
Foto registrada em 15 de março de 2026, no 2º dia do ato de inauguração da Renafro Curitiba, instituição da organização civil que reúne povos de terreiro, gestores e profissionais de saúde, integrantes de organizações não governamentais, pesquisadores e lideranças do movimento negro trabalhando pela promoção da saúde da população dos terreiros. Foto: Gabriel Souza/Perfil Azeviche Paraná

Em Curitiba, o Ilê Asé Tobi Odé Karê Igbo, terreiro com 26 anos de existência no bairro Cajuru, que está sob a responsabilidade da ialorixá Josianne D’Agostini, representará a rede na capital paranaense. Em entrevista, ela afirmou que sua principal intenção junto à Renafro “é conseguir trazer o SUS para o povo de terreiro”, respeitando a particularidade vivenciada pelo povo de axé e garantindo que essas pessoas tenham acesso a um tratamento médico digno. Para ela, os barracões precisam saber dos direitos que possuem e ir buscá-los junto aos órgãos competentes.

“Psicologicamente falando, eu acredito que a gente tenha que fazer um trabalho muito grande”, iniciou, referindo-se à área da saúde. “A gente tem aí não só babalorixás e ialorixás, mas membros dessas casas com depressão. Por quê? Foi o preconceito que ele sofreu lá fora por ser de religião de matriz africana. A criança pequena — qual foi o trauma que foi causado nela na escola por ser chamada de várias palavras pejorativas que nós não vamos repetir aqui, mas que a gente sabe que existem. Então, quando eu falo de saúde com o SUS, todo mundo pensa assim: ‘eu quero levar o meu barracão para dentro do SUS.’ Não. Eu quero trazer o SUS para dentro do meu barracão. Para daí sim eles entenderem o nosso trabalho, estarem conosco e perceberem as nossas terapias e o que nós também necessitamos deles”, continuou.

Ao longo dos dois dias, o lançamento da Renafro Curitiba contou com uma programação especial para quem se fez presente, além do acolhimento tradicional proporcionado pelo terreiro liderado por Mãe Josianne. Foram realizadas palestras sobre temas que passaram por políticas públicas para o envelhecimento; racismo religioso; acesso a recursos para o fortalecimento da população de terreiros; nutrição; patrimônio e território cultural.

Os coordenadores da Renafro Nacional, a também ialorixá Nilce de Iansã e o Babá Diba de Iemanjá, estiveram presentes ao longo dos dois dias. Ambos também concederam entrevistas ao Perfil Azeviche, falando sobre o sentimento de verem o nascimento de mais um núcleo da Renafro — os depoimentos completos podem ser vistos nos vídeos abaixo.

“Este ano, completaremos 23 anos de história. Quando o nosso trabalho chega na região Sul — e olha que eu sou do Rio Grande do Sul — nós estamos cumprindo a nossa meta. Porque, quando a gente fala na parte Sul do país, nós estamos dialogando com o berço do racismo brasileiro. (…) Antes da Renafro, as tradições de matriz africana, perante o Ministério da Saúde, enquanto um diálogo, como espaço de cuidado, eram totalmente invisibilizadas. Já tentavam invisibilizar, enquanto terreiro mesmo, que faz o seu trabalho social no lugar em que se localiza — imagina enquanto espaço de cuidado. Bom, pós-Renafro, temos esse reconhecimento. Nós já temos, inclusive, citações no site do Ministério da Saúde sobre o trabalho da Renafro”, comemorou Babá Diba.

“A Renafro contava, até hoje, com 54 núcleos. Hoje nós estamos fundando o núcleo Curitiba, que tem à frente a ialorixá Josianne de Oxóssi, que vai coordenar o núcleo Renafro Curitiba. E eu fico feliz por ser uma mulher de Oxóssi, porque Oxóssi, o orixá caçador, certamente nos trará e nos ‘caça’ para um núcleo de terreiro. Então, eu estou aqui muito feliz por fundar esse núcleo Renafro Curitiba”, disse Mãe Nilce.

Relação da Renafro com o poder público

Josianne disse que a Renafro e sua proposta foram acolhidas por braços do poder municipal e também por outros grupos e entidades da sociedade civil curitibana. Contudo, reconheceu que haverá desafios em levar a Renafro para o universo externo à realidade dos povos de axé, dada a relação da cidade com as religiões de matriz africana.

Não é surpresa para a matriarca tais obstáculos. Aproximar-se dessas redes de poder é fundamental, em sua visão, para quem quer exercer o trabalho de liderar um núcleo da Renafro e, assim, garantir o que já foi dito nesta reportagem: os direitos básicos.

“A partir do momento também que nós encontrarmos políticos que estejam com a sensibilidade das nossas necessidades, nós temos que saber que nós temos que ir lá. Nós temos que ir lá e dizer: ‘oi, é sobre mim que estão falando, é sobre a minha comunidade, é sobre centenas, dezenas, milhares de pessoas pretas de Curitiba’. Porque, às vezes, nós temos políticos, pessoas lá dentro, magistrados, que querem trazer política pública para nós, mas essa bancada enfrenta uma outra bancada que é dez vezes maior que ele e, às vezes, ele está sozinho. E por que ele está sozinho? Na minha opinião, porque também nós não vamos lá no plenário quando ele está lançando uma palavra sobre nós, dizer que nós estamos aqui — somos nós, é sobre nós. Então, às vezes, esse próprio político que quer nos abraçar não consegue nos colocar lá dentro. E, às vezes, nós também não vamos”.

De qualquer forma, os próximos passos já estão definidos. A Renafro Curitiba entra no cenário com o objetivo de ser mais uma organização em defesa dos povos de Axé. Mãe Josianne é só gratidão a todos que lhe apoiam nesse novo caminho:

“Então, eu sou grata à nossa comunidade, eu sou grata à aceitação que a gente está tendo e quero trazer realmente junto com a comunidade, porque sozinha eu não vou fazer nada. Eu gostaria de chamar as pessoas para conhecer a Renafro. Conhecer o trabalho da Renafro e vir trabalhar junto com a gente, fazendo política pública, fazendo saúde, fazendo amigos. Fazendo uma corrente muito forte. Eu gosto de dizer assim: eu não gosto de andar na frente, eu gosto de andar assim. Porque, se eu andar com as pessoas ao meu lado, eu vou criar um elo tão forte, tão grande, tão enlaçado, que nada vai quebrar, nada vai derrubar”, finalizou.

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