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Boca Negra encerra o Carnaval em Curitiba e homenageia Tia Mide em cortejo de 2026

A região histórica do Capanema, que hoje compreende o entorno dos bairros Rebouças e Jardim Botânico, em Curitiba, recebeu mais um cortejo do Bloco de Samba Boca Negra na tarde de terça-feira, 17 de fevereiro. O encerramento do Carnaval curitibano promovido pelo grupo musical reuniu dezenas de pessoas para homenagear Cremildes Ferreira Bahr, conhecidíssima em todo o estado como Tia Mide, a primeira mulher negra a receber o título de Doutora Honoris Causa no Paraná. O Perfil Azeviche acompanhou o evento e o traz em detalhes neste texto, além das fotos e vídeos que estão disponíveis ao longo desta postagem.

Caroline Blum, vice-presidente do Bloco de Samba Boca Negra, concedeu entrevista e explicou como funciona o cortejo, que acontece anualmente na cidade desde 2017 — ano de fundação do bloco. Considerada a antiga cidade industrial de Curitiba, segundo Carol, a região do Capanema é escolhida porque se trata de um “solo sagrado do samba” na capital, conforme explicou.

O espaço abrigou a Vila Tassi, local de moradias populares e também onde nasce o samba de Curitiba entre as décadas de 1930 e 1950. Além disso, o espaço histórico também deu origem à primeira escola de samba da cidade, a Colorado, em 1945. A poucos metros do atual Viaduto Capanema há a casa de Maé da Cuíca, que é um dos fundadores da Colorado. Além do samba, Maé foi jogador de futebol. Carol conta que ele fez história no Ferroviário, um dos clubes que compõem a origem do Paraná Clube.

“Todo ano homenageamos uma personalidade negra do Paraná. Já homenageamos, por exemplo, Mestre Libânio, Dona Evanira dos Santos, Enedina Alves Marques. Falamos sobre a pintura do Debret, que é uma das primeiras imagens de Curitiba onde aparece um homem negro. E, este ano, homenageamos a Tia Mide, Dona Cremildes, Doutora Honoris Causa, a primeira mulher negra a receber o título de Doutora Honoris Causa no Paraná”, mencionou.

Durante o cortejo, o Boca Negra realiza uma roda de samba ambulante: “A gente não é um bloco de marchinhas, a gente é um bloco de samba”, afirma Carol. A concentração acontece embaixo do Viaduto Capanema, com o grupo cantando sambas de compositores de Curitiba (como Maé da Cuíca e Chocolate). Em seguida, todos saem entoando o samba composto para o homenageado(a) pelo grupo. A caminhada, conforme mostra o quadro abaixo, é relativamente curta e termina na antiga casa de Maé da Cuíca.

“Lá na casa do Maé, fazemos o encerramento com uma grande roda de samba. Tem hora para começar, mas não tem hora para terminar. Nesse local, onde o Maé morou enquanto foi trabalhador da rede ferroviária por mais ou menos 30 anos, até o final das décadas de 1970 e 1980”, destacou Carol.

Cortejo Bloco de Samba Boca Negra Curitiba 2026
O samba enredo feito pelo Bloco de Samba Boca Negra para homenagear Tia Mide no cortejo 2026. Foto: Gabriel Souza/Perfil Azeviche Paraná

Curitiba tem samba?

É claro! Já respondendo à pergunta feita pelo próprio autor deste texto. Afinal, esta postagem mostra exatamente isso. Fugindo do senso comum que muitos possuem sobre Curitiba e o Paraná, o samba é raiz da identidade brasileira — e é no Brasil que está o território curitibano e paranaense.

O Bloco de Samba Boca Negra vem com essa proposta: preservar a memória de inúmeros personagens que são apagados nesta cidade por meio de ações concretas que fortaleçam o ritmo no presente, mas também junto às futuras gerações. O Boca Negra também homenageia a Colorado que, conforme já foi dito, é considerada a primeira escola de samba da cidade.

Além de vice-presidente do Boca Negra, Carol é antropóloga e pesquisa o samba e o carnaval de Curitiba há quase 20 anos e comenta o Carnaval de Curitiba no canal Gruta Carnaval. Ela disse que um dos objetivos do bloco é construir um Memorial do Samba em Curitiba “para reunir objetos e acervo e fazer com que as pessoas conheçam a história do samba da cidade, além da realização de outras atividades”.

“Nesses quase 20 anos que pesquiso samba, vejo que muitas pessoas questionam a própria existência do samba sem nem ao menos conhecer. Tem uma frase de Santo Agostinho, mas eu aprendi com Cláudio Ribeiro, grande sambista compositor da cidade — então vou creditar a ele — que diz: ‘ninguém ama o que não conhece’. O nosso Memorial do Samba tem esse intuito: que as pessoas conheçam, defendam e valorizem. Que nós, enquanto comunidade do samba, possamos nos fortalecer e nos reunir. Essa é a ideia do Boca Negra. Passaram os desfiles das escolas, a apuração, e hoje é um dia de encerramento do carnaval aqui, agregando toda a nossa comunidade do samba”, comenta.

Questionada sobre essa relação da capital do Paraná com o samba, Carol opina ao fazer um resgate histórico, citando o Plano Agache e a Vila Tassi — com a divisão da cidade por meio do trilho do trem. O samba de Curitiba conta uma outra história da cidade: uma história que muitos não querem que seja trazida ao grande público, uma história que não é considerada “oficial” porque não é relatada pela elite/burguesia curitibana. Essa história traz, segundo ela, a perspectiva dos negros, trabalhadores e operários, mulheres e população periférica: a visão das “minorias majoritárias”.

“Eu vi uma frase do Maé que, para mim, é muito significativa: quando eles fizeram a Colorado, conseguiram ultrapassar a linha do trem. Porque uma coisa é a cidade até a linha do trem, e outra coisa é a cidade depois da linha do trem. Se você pega o planejamento da cidade, como o Plano Agache, ele ia até a linha do trem.

Tem um samba do Maé, feito na década de 1940, que diz: ‘Se você é sambista de verdade, abandona a cidade e vai lá pra vila mostrar’. Não só aqui em Curitiba — em vários lugares do samba existe isso: o morro e o asfalto, a vila e a cidade. Há realmente esse distanciamento simbólico e essa dificuldade estrutural que a periferia enfrenta, o que faz com que ela crie uma identidade própria. O Capanema tem essa identidade muito forte. Temos, por exemplo, a roda da velha guarda do samba do Capanema, pessoas que há décadas trabalham no samba.

Temos uma história muito interessante, que nos permite entender a cidade não só pelo Barão do Cerro Azul, mas pelos trabalhadores das fábricas de erva-mate, da rede ferroviária, das indústrias do Rebouças que construíram a cidade. É com a ferrovia que a cidade cresce. Uma massa de trabalhadores veio fazer parte e construiu essa cidade. O carnaval e a história do samba de Curitiba têm uma relação muito forte entre samba, ferrovia e futebol. Essa mescla é característica do povo brasileiro: samba, futebol e trabalhadores. Porque quem vive o carnaval sabe que, além de diversão, também é trabalho e modo de vida. É uma outra história da cidade, a partir da linha do trem para cá”.

Futuro?

Quando a gente fala sobre futuro, fala sobre o legado deixado e sobre como não deixar morrer algo que resiste ao tempo. E, em Curitiba, o Perfil Azeviche acredita que o samba é um elemento que necessita ser cultivado para que permaneça contando a história da cidade.

Carol falou sobre a união da antiga e da nova geração, algo que se fez presente no cortejo com pessoas de todas as idades ao longo daquela tarde de sol. Ela também ressaltou a importância de a população conhecer o trabalho de pesquisa e quem o realiza para a preservação da memória de inúmeros sambistas que cantam sobre a cidade.

Sob a regência de uma filosofia africana, que nos convida a olhar e respeitar “o que veio primeiro”, a antropóloga acredita que não é necessário fazer “algo novo”, apenas seguir o caminho “que já foi capinado”.

“Eu gosto muito de uma frase do sambista Candeia, que diz que o samba é a história do Brasil. Ele valoriza muito isso. Na diáspora africana, temos diversas manifestações da cultura negra, mas precisamos conhecer a nossa cultura, que nasce no nosso solo. A própria história do carnaval de Curitiba mostra isso. Tivemos grandes gestores, como Cláudio Ribeiro e Glauco Souza Lobo, quando havia um carnaval de cinco dias: um dia só de blocos, desfiles do grupo especial, do grupo de acesso, desfile das campeãs e o festival Abre Alas na Praça Osório. Mas essa história não está contada.

E aí eu trago o enredo da Mangueira: ‘o samba vai contar a história que a história não conta’. Por isso, como já disse o Maé, é preciso abandonar a cidade e vir para a vila conhecer, fomentar essa história e se sentir pertencente. Eu acho que o mais especial… o mais especial do samba é esse acolhimento. As pessoas virem, se sentirem acolhidas, se sentirem parte. É isso que o samba proporciona. E é isso que eu convido todo mundo: vir conhecer aqui com o Bloco Boca Negra”, finaliza.

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