Foto registrada em 21 de março de 2026, dia do lançamento do projeto Axé Paraná. O ato aconteceu no Memorial de Curitiba, no Largo da Ordem, reunindo autoridades, lideranças políticas e religiosas. Foto: Gabriel Souza/Perfil Azeviche Paraná
No último dia 21 de março, Dia Nacional e Internacional de Luta contra a Discriminação Racial, o Teatro do Memorial de Curitiba foi palco para o lançamento do projeto Axé Paraná. Naquela noite de sábado, importantes lideranças religiosas, representantes institucionais, autoridades públicas e a comunidade se reuniram nas imediações do Largo da Ordem para celebrar o momento, que visa dar garantias de direitos aos povos de Axé por meio de uma “assessoria completa” àqueles que lutam diariamente pelo fortalecimento das comunidades de terreiro.
De acordo com os organizadores, o projeto visa oferecer “suporte técnico, jurídico, contábil e formativo às lideranças e responsáveis por comunidades tradicionais de matriz africana, contribuindo para a regularização das instituições, o fortalecimento das comunidades e a ampliação do acesso a políticas públicas”. Com isso, será possível fortalecer e preservar tradições culturais afro-brasileiras, que são constantemente atacadas na sociedade atual.
Foto registrada em 21 de março de 2026, dia do lançamento do projeto Axé Paraná. O ato aconteceu no Memorial de Curitiba, no Largo da Ordem, reunindo autoridades, lideranças políticas e religiosas. Foto: Gabriel Souza/Perfil Azeviche Paraná
O projeto contou com a participação de uma emenda parlamentar destinada pela deputada federal Carol Dartora. A partir disso, foi submetido a uma série de exigências do Ministério da Igualdade Racial antes da assinatura do convênio com o órgão federal. Criador e idealizador do projeto Axé Paraná, Eduardo Filho agradeceu a todos os presentes em seu discurso, relembrando que o enfrentamento ao racismo, por parte das pessoas negras, é feito diariamente em suas vidas. Para ele, toda iniciativa que venha a ser aliada a essa causa deve ser celebrada com muita força.
“Nós, enquanto sociedade civil, enquanto pessoas, enquanto religiosos, buscamos essa tão sonhada equidade, essa tão sonhada igualdade racial. Como é importante esse dia. É um começo em que nós temos muito trabalho pela frente, temos muito a fazer, sabemos disso. Mas já demos passos, e fico feliz por isso, porque já marcou a história de Curitiba e a história do Paraná”, comentou.
Lideranças religiosas
Mãe Josianne D’Agostini, do Ilê Asé Tobi Odé Karê Igbo, responsável pela Renafro Curitiba, foi a primeira a se pronunciar, considerando as autoridades presentes. Ela comemorou a iniciativa, mais uma que vem para fortalecer os povos de terreiro:
“Que [este projeto] traga para esta cidade de Curitiba… Eu sei que são várias pautas, então que todas essas pautas realmente contemplem os povos de terreiro; que Exu e Oxalá… que esse projeto contemple pessoas, seres humanos, amigos — pessoas que realmente tenham a mão: os povos pretos da cidade de Curitiba”.
Ela foi seguida pelo Pai Igbi Ala, que também falou em nome das lideranças de terreiro que se fizeram presentes no evento. Em sua reflexão, ele mencionou o “grito de vitória” que os povos de Axé dão a cada iniciativa que é construída para o fortalecimento da cultura afro-brasileira:
“Olha, eu vou fazer 54 anos agora, neste ano, e, nesses anos todos, eu percebo que, ultimamente, parece que conseguimos dar um grito de vitória: que vamos estar na frente, ninguém vai nos calar, né? Então, eu estou muito feliz e contente por pensar nisso hoje. Que tenham força o Eduardo e sua equipe também, para poder levar esse legado à frente. Que todos nós sejamos agraciados por Oxalá e pelos orixás.”
Foto registrada em 21 de março de 2026, dia do lançamento do projeto Axé Paraná. O ato aconteceu no Memorial de Curitiba, no Largo da Ordem, reunindo autoridades, lideranças políticas e religiosas. Foto: Gabriel Souza/Perfil Azeviche Paraná
Também como liderança religiosa, mas dentro da Igreja Católica, o diácono e vice-presidente da Associação Beneficente Eduardo Filho (ABEF), Sidney Lemes, trouxe um trecho do texto-base da Campanha da Fraternidade deste ano, que fala sobre a população em situação de rua, para refletir sobre a necessidade de combater “qualquer iniciativa de intolerância religiosa contra qualquer manifestação de fé”.
"Em muitos dos bairros de periferia, a presença das comunidades de cultos afro-brasileiros tem sido também instrumento de resistência contra a desumanização da vida, oferecendo às populações de periferia a dignidade de filhas e filhos de Deus, invocável através dos diversos nomes", diz o trecho do parágrafo 77 da Campanha da Fraternidade.
Foto registrada em 21 de março de 2026, dia do lançamento do projeto Axé Paraná. O ato aconteceu no Memorial de Curitiba, no Largo da Ordem, reunindo autoridades, lideranças políticas e religiosas. Foto: Gabriel Souza/Perfil Azeviche Paraná
Na sua opinião, os espaços das religiões afro-brasileiras (terreiros, casas de axé) nas periferias — ou em muitos dos lugares onde as pessoas negras também se encontram — não são apenas lugares de fé, mas também lugares de resistência social e humana.
“Quando o texto reconhece que, em muitos contextos, comunidades afro-brasileiras são sinal, na sua existência, de resistência contra toda a desumanização, ele nos lembra algo essencial: ninguém perde sua dignidade por causa do nome que invoca a Deus. Toda a vida humana é sagrada. E a intolerância religiosa contra qualquer manifestação de fé é uma ferida que nós, como sociedade e como pessoas de fé, temos o dever de enfrentar com coragem e com atitude. É com esse espírito que hoje lançamos o projeto Axé Paraná. Um projeto que nasce para promover respeito, convivência, educação para a paz e para fortalecer a dignidade das pessoas”, disse.
Foto registrada em 21 de março de 2026, dia do lançamento do projeto Axé Paraná. O ato aconteceu no Memorial de Curitiba, no Largo da Ordem, reunindo autoridades, lideranças políticas e religiosas. Foto: Gabriel Souza/Perfil Azeviche Paraná
Pai Flávio Maciel, coordenador-geral do Fórum Paranaense de Religiões de Matriz Africana, ressaltou a importância de iniciativas que estejam alinhadas ao poder público para que surjam políticas públicas que atendam às reais necessidades do povo de Axé.
“A gente sabe que falta muita informação ainda. A gente tenta resolver essa dificuldade de uma violência histórica que a gente tem — uma sociedade que sempre nos marginaliza. A gente precisa de iniciativas como essa para poder fazer ações reparativas, para que possamos dar estrutura, diálogo e orientações jurídicas para os nossos terreiros, para que possam estar de cabeça erguida dentro dos seus territórios. E, a partir dali, se firmar e se fortalecer juridicamente, com muito respeito a toda a comunidade, mas enfrentando principalmente o racismo, que às vezes aparece pelos fundos ou pela frente. Muitas vezes a gente se cala sem saber como enfrentar essa violência que nos atinge”.
Lideranças políticas
Durante o evento, também discursaram as vereadoras de Curitiba Giorgia Prates (PT) e Professora Angela (PSOL). Giorgia já é conhecida por sua defesa intransigente dos povos de terreiro de Curitiba e da Região Metropolitana, algo que se intensificou com a criação da campanha “Curitiba do Axé”. Ela, que caminha junto a inúmeros terreiros da Grande Curitiba, traz diariamente para o centro do debate os enfrentamentos e violências que essas pessoas vivem por não poderem exercer livremente seus atos de fé. Na sua opinião, já passou da hora de o “Paraná ser Axé”.
“Eu não sou de um grande terreiro, mas sou muito feliz por ter como norteador o Xangô, que é o orixá da justiça, e que me coloca justamente nesse lugar de saber que eu jamais poderia dar um passo sem todo esse entendimento de escuta, de conversa, de diálogo com os terreiros. E, através disso, a gente conseguiu colocar muitos projetos importantes para acontecer na Câmara de Vereadores. (…) Nós estamos sendo atacados, então precisamos nos proteger — e esse projeto (Axé Paraná) é uma dessas formas de proteção. Porque, quanto mais a gente mostrar que existimos, que resistimos, que somos muitos e muitas, mais conseguimos fazer esse contraponto e transformar essa realidade”.
Professora Angela ressaltou o momento em que o projeto Axé Paraná nasceu, algo que julgou ser “importantíssimo”, uma vez que está cada vez mais forte o racismo estrutural, o racismo religioso e a intolerância religiosa.
“Corroborando com o que a vereadora Giorgia acabou de falar, a gente tem vivido isso todos os dias na Câmara de Vereadores. Seja não votando nos nossos projetos, seja colocando pautas absurdas relacionadas às religiões deles, homenageando lideranças deles, destinando recursos para as religiões deles — e tudo isso passa com facilidade. E, no nosso caso, a gente só vê intolerância, só vê preconceito. A gente vê espaços de Axé sendo, muitas vezes, destruídos e desrespeitados. Então, eu só quero agradecer pelo convite de estar aqui neste ato solene, falar da importância desse projeto e dizer que eu, professora Angela, e o mandato do PSOL estamos juntos com vocês nessa luta — na luta contra a intolerância, na luta contra o racismo religioso”.
Foto registrada em 21 de março de 2026, dia do lançamento do projeto Axé Paraná. O ato aconteceu no Memorial de Curitiba, no Largo da Ordem, reunindo autoridades, lideranças políticas e religiosas. Foto: Gabriel Souza/Perfil Azeviche Paraná
A deputada federal Carol Dartora, em seu discurso, relembrou que essa é uma de suas lutas enquanto parlamentar no Congresso Nacional. Para ela, participar de projetos como esse — nos quais destinou parte de recursos públicos para sua execução — é enriquecedor para o seu mandato.
“Então, por isso eu fico emocionada de estar aqui, como uma deputada preta, podendo apoiar um projeto como esse. O projeto Axé Paraná nasce, portanto, como uma resposta concreta a essa história de exclusão. Ele não é apenas um projeto — ele é uma política de reparação, de reconhecimento e, sobretudo, uma política de futuro. Porque o nosso futuro é ancestral”.
O Axé Paraná vem com a premissa de fortalecer comunidades, proteger tradições e ampliar direitos aos povos de terreiro. No link abaixo, é possível preencher o formulário que submete as informações à análise da equipe técnica do projeto.
Clique aqui, caso tenha interesse em buscar mais informações sobre o Axé Paraná.
Foto registrada em 21 de março de 2026, dia do lançamento do projeto Axé Paraná. O ato aconteceu no Memorial de Curitiba, no Largo da Ordem, reunindo autoridades, lideranças políticas e religiosas. Foto: Gabriel Souza/Perfil Azeviche Paraná